Por: Malka Birkman Toledano; María Antonieta Pezom e Sandra Berenstein Tudisco

O grupo e o agrupamento mesmo constituem para seus membros, sobretudo quando confrontados a viver rupturas catastróficas, um recurso e uma fonte de escoramento, de envoltura, de defesa e de apoio narcisista compartilhado. (R. Kaës)

O Cenário pandêmico na educação

Frente ao cenário de pandemia, o Brasil está entre os países onde a educação foi um dos setores da sociedade mais afetados, devido as desigualdades sociais. Com o fechamento das escolas deflagrou-se a enorme distância socioeconômica que existe entre setores da sociedade que possuem uma infraestrutura capaz de sustentar o novo cenário (educação a distância, telefones celulares, notebook e acesso a internet) e uma setor despossuído do básico para sobrevivência, e absolutamente despreparado para dar continuidade a uma educação a distância.

Constatamos que o fechamento das escolas foi fundamental para proteção social, no sentido de contenção da disseminação dos vírus em um período que não existia um repertório de proteção, tão pouco vacinas disponíveis. Por outro lado, provocou enorme desorganização social. Os atores da escola espelhavam a própria desintegração da/na instituição.

A instituição interrompida e sem aviso prévio, demandava uma sustentação, um suporte, com a capacidade adaptativa e para lidar com resiliência. O cenário de “guerra”, com um crescente número de mortes anunciados pelas mídia trouxe a olhos nus nossa incapacidade e vulnerabilidade como nação incapaz de conter os estados alarmantes.

No contexto dos lares, crianças e jovens enclausurados em seus quartos com sensações de angústia, tristeza, impotência e solidão. A apatia frente a situação desafiadora, perda de motivação para acompanhar as aulas online, falta de esperança de que um dia a vida seria retomada formaram uma lacuna do convívio social escolar deixando marcas profundas que, certamente, serão mais bem compreendidas e pesquisadas posteriormente.

O isolamento físico provocou fortes rupturas nos vínculos, com impactos visíveis que sinalizaram a necessidade de espaços de escuta, diálogos e reflexão como possibilidades de ressignificação do vivido. Diante do contexto abrupto da suspensão das aulas presenciais, acompanhamos os desafios escolares movidos pelo desejo de oferecer um suporte aos profissionais e alunos das escolas que passaram a viver o progressivo desmoronamento do cotidiano escolar. Tivemos a oportunidade de acompanhar tanto a rede privada quanto a pública.

Acompanhamos uma diversidade de atores do contexto educacional em espaços de escuta com os gestores, educadores e profissionais da área administrativa, das famílias e dos alunos. O nosso propósito enquanto programa foi: reconstituir os fios esgarçados pela situação de isolamento; oferecermos condições para reconstrução de tecido social e dar suporte ao desamparo de todos que estariam em sofrimento psíquico. Consideramos que a saúde mental dos sujeitos depende das condições oferecidas pelo entorno social, sendo o espaço grupal fundamental como dispositivo para prover e restituir aquilo que tinha sido quebrado pela pandemia. Ofertamos grupos atendidos online por dois coordenadores em encontros semanais. A escuta dos afetos, angustias temores permitiu poderem exprimir diversos sentimentos, compartilhar o vivido e pensar coletiva e criativamente respostas à situação inédita vivida.

Reconhecemos o valor fundamental que a escola desempenha na nossa sociedade e na constituição do sujeito como ser social, pertencente a um grupo a uma comunidade. É um espaço de múltiplas aprendizagens em que o sujeito passa a reconhecer e desempenhar o papel social fora do ambiente familiar. É nesse contexto coletivo que os sujeitos experimentam diversos sentimentos, exercitam a capacidade de tolerar o outro, se adaptar ao novo graças ao convívio social. Entendemos assim que a escola vai muito além de um espaço de desenvolvimento cognitivo e intelectual. Representa um ambiente que propicia o desenvolvimento intrapessoal, intersubjetivo e grupal.

O convívio entre os pares em uma relação mais simétrica, diferente do que acontece na relação familiar é estruturante para a personalidade do sujeito. A escola é um espaço de estruturação do psiquismo devido a estabelecer um tipo específico de alianças e contratos entre os implicados: A escola e os familiares, a escola e o aluno, o denominado contrato narcisista secundário (Kaés, 2000). A escola oferece e chega com propósitos de atravessar e se preparar para as vicissitudes do convívio social. Ela é um espaço para exercitar a cidadania, conviver com situações de conflito nas relações com os pares. Vicissitudes que oferecem a possibilidade de múltiplos aprendizados: a autopercepção, a possibilidade de rever os próprios limites, de lidar com a frustração, entre muitas outras competências.

Desta forma a escola é um ambiente carregado de sentidos e de significados para todos os atores desse contexto, que vão mais além do ensino de conteúdos. Oferece oportunidade aos jovens vivenciarem e ressignificarem diferentes formas de interação social que serão aproveitadas em outros contextos da vida adulta.

É no vínculo, com nesse pequeno grupo social (família), que o nosso Eu se constitui e a escola amplia essa possibilidade de ir sendo com os outros. E, é por meio do desempenho desses papéis sociais, pelo encontro com o semelhante e o diferente que aprendemos a nos conhecer.

Do ponto de vista psicossocial, a saúde mental está relacionada a integração das emoções, dos afetos, dos pensamentos e dos comportamentos. A pandemia denunciou uma experiência traumática, a quebra da continuidade da existência, do ser.

Destacaríamos que junto ao pedido de ajuda, havia um contexto escolar fragilizado com pouco investimento no cuidado da saúde mental. A pandemia denunciou a importância desse trabalho dentro das escolas e das salas de aulas, uma escuta com profissionais especialistas.

Redes de sustentação: a importância de um trabalho grupal

Os profissionais envolvidos neste projeto têm uma longa experiência de trabalho com grupos. Alguns realizaram trabalhos como co-coordenadores ou co-animadores em grupos presenciais. Mas a experiência a ser ofertada on-line era nova para muitos de nós.

Embora a experiência dos facilitadores dos grupos seja presencial, aceitamos a proposta de combinar as bagagens que cada um trazia, com a possibilidade de engendramos uma nova maneira de trabalhar: desafiados e munidos de confiança em nosso grupo de trabalho, demos início aos atendimentos com grupos remotamente de forma multidisciplinar e transdisciplinar.

Reconhecemos a eficiência do trabalho com grupos, suas vantagens e a facilitação que promove a construção de narrativas daquilo que dói, incomoda, angústia, que está silenciado, ou impossível de ser dito. O encontro com o(s) outro(s) possibilita a abertura de novos canais discursivos. Nessa coreografia única que se forma no entrelaçamento dos dizeres, silêncios, olhares, manifestações verbais e não-verbais, surgem como narrativas inéditas, que reconhecemos como próprias com o dizer do outro.

A primeira pergunta foi será que encontros não presenciais poderiam ter o mesmo efeito que um encontro presencial, como estávamos acostumados, cálidos e humanos. Quais seriam os dilemas clínico-técnicos, éticos que esses encontros não presenciais nos enfrentariam. E, mais como seria trabalhar junto com colegas que abordam os grupos teórica e tecnicamente com uma escuta, que não necessariamente é psicanalítica, ou que intervém desde outros pressupostos teóricos. Se, valorizamos que o encontro com o diferente é enriquecedor quais os efeitos dessas diferenças entre os monitores para o grupo.

Antes do início do nosso trabalho surgia a dúvida se poderíamos resgatar esse olhar que diz para além das palavras, que fala: será que cada membro poderia reconhecer algo no olhar do outro ou na mímica corporal. Será que em um encontro virtual, conseguiríamos identificar, pelo olhar, o gestual do outro quando estivesse incomodado com alguma fala ou sentimento, que lhe afeta e que não consegue expressar verbalmente. Será que os facilitadores conseguiram manusear os gadgets com as ferramentas exigidas pelos encontros online. Mas todas essas questões não estavam nos impedindo de pensar, atuar e produzir encontros virtuais.

Em tempos de isolamento social, de medo e terror ante as incertezas, o imprevisível e todas as ameaças de manutenção da vida, criar e nos arriscar era fundamentalmente necessário para apostar na vida, no encontro humano, no aconchego do outro e na potência de transformação e resiliência a partir uma boa rede vincular.

Constatamos, apesar dos nossos receios, que a experiência grupal acontece mesmo de forma online, com cada participante no espaço da própria casa.

O ambiente de encontro, tal como propõe Donald Winnicott(1986), não depende de estruturantes físicos, concretos, como uma sala com paredes, mas da criação de um espaço criativo, transicional que potencialize o acesso ao simbólico Onde o que se fala encontre continente na fala do outro, no gesto que reverbera no próprio corpo. E o corpo do outro. Esses foram os nossos ambientes de encontro: os nossos corpos. As janelas como os nossos ouvidos e olhos. As falas e os olharem como portas que permitiam o trânsito entre o de dentro e o de fora.

Estabelecemos e mantivemos um dispositivo-enquadre com contratos bem-feitos foram com encontros semanais, no mesmo dia e no mesmo horário com o propósito de tecerem juntos uma trama coletiva. Essa trama se constitui através da identificação de demandas comuns aos integrantes, formação de laços afetivos, que trançam redes. Todos com a condição de protagonismos discursivos , em um processo conjunto de descoberta e reconhecimento do seu próprio desenvolvimento e do coletivo.

A fim de fortalecer essas redes de apoio, com acolhimento e flexibilidade para lidar com os desafios das telas dos computadores e celulares, percebemos que, aos poucos, estávamos formando vínculos e foi se constituindo e construindo o grupo. A escuta entre os membros permitiu que fosse possível ouvir para além do que se diz, respeitando o silêncio, considerando os gestos e reconhecendo o tempo do outro. Neste sentido, observamos que a leitura para a comunicação gestual, tão valorizada nos encontros presenciais, mesmo sendo à distância, pode ser captada. Houve, sem dúvida alguma, abertura para um novo veículo de leitura do outro e de nós mesmo, em uma outra linguagem que tem lá suas regras próprias na qual estávamos envolvidos tanto os facilitadores como os participantes.

Realizamos através das telas, sobrecarregamos algumas formas do sentido e outras se tornam quase desnecessárias diante dessa linguagem. Visão e audição ficam exaustas.

Olhos e ouvidos tentando suprir todas as informações que recebíamos pelo conjunto dos cinco sentidos. Como alguém que perde uma capacidade sensorial, por reprogramação neuronal, tecnicamente denominada de plasticidade neuronal, desenvolvemos uma espécie de “radar” para ler o ambiente a partir da integridade das outras sensorialidades, para suprir minimante aquela(s) sensorialidade(s) perdida(s).

Foi uma experiência comum a todos os facilitadores de cansaço excessivo para além daquele que os encontros presenciais demandavam, na tentativa de ajustar recursos disponíveis a uma identificação de demanda pelas formações de grupos. Criamos, elaboramos, construímos espaços possíveis junto com Gestores, Educadores, Alunos e Famílias para que o humano pudesse ser preservado e cuidado.

Sandra Tudisco
Coach, Psicodramatista Didata, consultora especialista em processos de mudança e gestão de conflitos organizacionais, apaixonada pela arte da liderança e da reconstrução de histórias de vida.
sandra@mnaroda.com.br